A culpa é do Murdoch

Carefully crafted in 08 Jun 2015

Ou porque é que o catálogo do Netflix vai ser cocó.

A cultura brota dos chifres de unicórnios que pastam em vales idílicos, e portanto não tem donos, é como o sol.

O advento da chegada do Netflix a Portugal está a provocar toda uma discussão (recorrente) sobre a oferta de conteúdos de entretenimento em vídeo no nosso país que me entretém muito mas que é no mínimo, vá, palerma. As teorias são múltiplas.

Primeiro há os que demonizam os operadores de TV paga, presas fáceis, primordiais de todo o mal. Depois há os que atribuem as culpas ao próprio Netflix, os velhacos, que gostam de irritar as pessoas. Há também os que acham que os produtores não entendem o consumidor, como podiam? E finalmente, talvez em maior número, há os que acham que o universo em geral não se alinha com os seus mundos particulares, e que isso é profundamente errado e violentamente condenável.

Mas opinar sobre o que não se percebe, tontices em geral e/ou maquiavelismo são a nossa especialidade, convenhamos.

O mais curioso é que estas discussões só são possíveis porque os bens transacionados são conteúdos de entretenimento, ficheiros e streams digitais intangíveis, tecnologia e bytes que viajam pela Internet e que deviam ser para todos e de todos, porque é cultura. E a cultura brota dos chifres de unicórnios que pastam em vales idílicos, e portanto não tem donos, é como o sol. Os seus autores, produtores, distribuidores, vendedores e consumidores são não mais que personagens de um sonho possível. A pirataria não é repreensível sequer, porque a cultura não tem valor, porque numa utopia perfeita as pessoas vivem vidas simples, em paz e harmonia com a terra e o universo, e o valor das coisas é espiritual, não é material. Já se por exemplo transacionássemos bicicletas de triatlo, ou porcos ibéricos, não poderíamos exercer esta linha de raciocínio. Criar suínos dá trabalho, as rações são caras e alguém tem que as pagar. Os platónicos da cultura digital pagam por porcos, penso eu. Mas adiante, divago.

Arcadia, ajavardada

Eis um guia

Esta malta tem uma pirâmide geradora de dinheiro nas mãos e ferrões bem afiados para usar quando for necessário.

De uma forma ou de outra, constato que faz falta um guia de boas práticas no que diz respeito a discussões sobre conteúdos de entretenimento e direitos relacionados, e nesse sentido deixo aqui o meu (não muito) humilde contributo e exercício de começar a construir um, que é baseado essencialmente em anos e anos de ingenuidade perdida por contágio direto (e infelizmente irrecuperáveis), mas também no senso comum, que é paradoxalmente pouco abundante na atualidade, mas que não se deve menosprezar.

Cá vai então a minha lista de factos que julgo serem tão verdadeiros como a nossa existência:

  1. Produzir conteúdos é um negócio e os produtores e/ou autores investem o seu tempo e/ou dinheiro para, pasmem-se, lucrar com isso.

  2. Benfeitoria, responsabilidade social, ou solidariedade pela cultura do povo raramente fazem parte dos pactos sociais ou missões corporativas das empresas desta indústria, bem pelo contrário. A não ser, claro, por questões de marketing, mas isso só por si não deixa de ser um investimento que visa a um retorno.

  3. Há toda uma cadeia de intermediários que é remunerada até as estórias chegarem aos nossos computadores, iPhones ou televisões para as consumirmos. Durante esta viagem poucos ou ninguém perdem dinheiro. Se perdem então estão provavelmente a fazer um mau trabalho, e a sua extinção será sumária.

  4. Esta cadeia de intermediários é tão potencialmente complexa quanto o mercado (que também somos nós), regulação e legislação quiserem que seja.

  5. Os donos dos direitos dos conteúdos raramente são quem pensamos que são. Na maior parte dos casos não são os seus autores, nem quem os difunde (operadores de TV, por exemplo, no fim da cadeia), estes simplesmente possuem contratos de licenciamento dos mesmos. Vou dar alguns exemplos:

    1. O Netflix não possui os direitos do House of Cards. Quem os detém é a Media Rights Capital, a quem há muito tempo o Netflix pagou uma bela maquia pela sua exclusividade quando ganhou o leilão à Showtime e à HBO. Neste momento a Sony, a Comcast e Amazon (via Amazon Instant Video), todos são distribuidores da série também. Na realidade o Netflix não produz nada, são apenas muito bons a fazer PR.

    2. O dono dos direitos de transmissão televisiva dos jogos do Benfica quando estes acontecem fora do estádio da Luz, não é o Benfica, são os clubes aonde o jogo se joga, que na maior parte dos casos os licenciam à Sport TV, uma empresa da NOS e da Global Media Group, que por sua vez os licencia em agregado, através dos seus canais, aos operadores de TV paga.

  6. Os verdadeiros donos dos direitos, as produtoras, os estúdios, os verdadeiros tubarões desta vida, só têm um objectivo nas suas vidas: maximizar o lucro dos seus investimentos. É um direito legítimo.

  7. Há várias estratégias para maximizar este lucro, as mais conhecidas são:

    1. Restrições geográficas. As restrições geográficas não são uma questão legal como muitos comentam, são sim um negócio e uma forma de os produtores aumentarem as suas receitas através de múltiplos contratos de licenciamento regionais, que muitas vezes envolvem investimentos em marketing e divulgação nessas mesmas regiões.

    2. Regime de exclusividade. A exclusividade paga-se cara, o Netflix aparentemente pagou $100 milhões pela exclusividade temporária dos direitos de duas temporadas do House of Cards para os seus clientes. Novamente, não foi Netflix que produziu o HoC, isso é um mito de uma comunicação social preguiçosa, na realidade eles não produzem nem são donos de nenhuma das séries do seu catálogo, ainda.

    3. Plataforma. É possível ter um mesmo conteúdo licenciado a múltiplos distribuidores em múltiplas plataformas: cinema, televisão, internet (desktop e mobile podem ser separados, e normalmente são), DVD, outros. Um operador pode ter os direitos para transmitir em televisão mas não o poder fazer na Internet, por mero exemplo (comum, por acaso).

    4. Janela temporal. Há diferentes modelos de negócio possíveis durante o tempo de vida de um conteúdo. Um filme por exemplo pode começar por fazer dinheiro no cinema mas depois, sequencialmente, cumprirá a sua missão noutras paisagens menos belas: televisão (canais generalistas, canais de séries ou filmes recentes, canais de séries ou filmes dos anos 90, 80, re-runs, etc.), clubes de video, DVDs, etc. Quanto mais recente for o conteúdo, e quanto mais alto for o valor que o público estiver predisposto a pagar por este, mais caro será o licenciamento nesse determinado momento e contexto. Já poucos se lembram mas o Netflix começou por ser um substituto digital dos agora decrépitos serviços de aluguer de DVDs por correio, muito antes de investir em conteúdos originais e exclusivos, e como tal só tinham filmes ou séries antigas para uma audiência essencialmente saudosista mas moderna.

Neste momento a matriz adensa-se consideravelmente, agora é só imaginar as combinações possíveis quando temos pelo menos quatro dimensões variáveis possíveis: geografia, exclusividade, plataformas, e tempo. São milhares.

Mas não se enganem, esta industria pode parecer um emaranhado inoperacional mas na realidade é altamente eficiente, sofisticada e global, resultado de largas décadas de crescimento e aperfeiçoamento. Há feiras de conteúdos de entretenimento que concentram $20 mil milhões de dólares de poder de compra num único ponto espaço-tempo, como é o caso da NAB.

Esta malta tem uma pirâmide geradora de dinheiro nas mãos e ferrões bem afiados para usar quando for necessário.

Números da NAB Show 2015, em Las Vegas

Portugal

Nem todos gostam de filmes e séries em Inglês. Uma vasta percentagem das audiências de entretenimento no nosso país está associada a novelas, ou produções como o Secret Story, o Master Chef e outras. E não me parece que isto mude tão depressa como alguns gostam de advogar. Os grandes grupos de media também já perceberam que há vantagens competitivas e financeiras em subsidiar a produção de conteúdos originais e exclusivos.

Em Portugal as coisas não mudam muito, só a dimensão e os protagonistas, mas o modelo é essencialmente o mesmo. E mesmo assim os grandes atores não mudam tanto como pensamos. Metade da Endemol, que produziu o Big Brother e o Secret Story, pertence à 21st Century Fox. O mesmo acontece com o Shine Group, que produz o Master Chef. O Ídolos é produzido pela FremantleMedia, que pertence ao grupo RTL.

Inovação

O grande catalizador da inovação na última década tem sido, claro, a Internet. A abundância e a massificação da conectividade e da banda larga criaram um novo canal de distribuição, pouco regulado, que permitiu que serviços como o Netlifx e a LoveFiLM aparecessem, primeiro disfarçados de evoluções digitais dos serviços de DVD-by-mail, mas que naturalmente evoluíram e hoje são mundialmente relevantes nesta industria. Há outros. O HULU é uma joint venture entre vários estúdios de peso, incluindo a FOX e a Disney, e oferece serviços de streaming gratuito de séries num modelo freemium baseado em anúncios de publicidade, por exemplo.

E é quando as coisas chegam a esta dimensão que se abalam pirâmides, se alteram os protagonistas, e há disrupção. Neste momento o Netflix tem influência, capital e (alegadamente) um modelo de negócio baseado em 60 milhões de subscritores digitais, ubiquidade total e taxas de crescimento absurdas, que lhes permite não apenas ganhar leilões e terem a primeira janela temporal exclusiva das séries, mas serem donos do próprio conteúdo investindo em produção própria, e com isto ganharem uma vantagem competitiva muito relevante, que pode mudar o equilíbrio da balança.

Na distribuição há lugar para inovação mas esta requere investimentos absolutamente pornográficos, e como tal duvido muito que esteja ao alcance dos pequenos empreendedores, porque a rutura já não é tecnológica. A rutura é do modelo todo e este é um jogo para meninos crescidos e em 2015 é um oceano vermelho saturado com pretendentes.

Onde eu penso que há bastante espaço para inovar nos próximos anos é na produção propriamente dita, no início da cadeia de valor. Os equipamentos desafiam as leis de Moore todos os anos, e a sua abundância a custos cada vez mais reduzidos, bem como a facilidade de partilhar conhecimento e gerar talento, gerir o relacionamento com os fãs, ou obter financiamento, estão a mudar tudo e a destruir barreiras, e a catapultar o culto do amadorismo para níveis de qualidade que podem vir a rivalizar ou a complementar os estúdios.

Conclusão

Como é que começou esta conversa? Ah, sim, o Netflix vem para Portugal, o catálogo não vale um chavo e a culpa é dos operadores de TV em Portugal que nos arruínam a vida.

Não é.

Se a vossa capacidade de compreensão e argumentação se reduz à dicotomia da culpa e da vítima, então a culpa é do Murdoch e não há vitimas, só a nossa ingenuidade e alguma preguiça.

Metaforicamente falando, se o senhor Murdoch concordar em ganhar menos dinheiro com o que lhe pertence, vocês terão o melhor catálogo do mundo de filmes e séries no Netflix em Setembro, senão vão ter que esperar, muito.

Barafustem com ele, caramba!

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