Iliteracia em literacia digital

Carefully crafted in 13 Jun 2007

Eu confesso que sou pro-”qualquer um que em vez de se lamuriar meta mãos à obra” mesmo que o dito cujo acerte ao lado uma vez ou outra. O saldo dos determinados é sempre a média dos seus sucessos e insucessos, e normalmente é sempre positivo, é sempre melhor do que reclamar e nenhum fazer.

E é por isso que não sou de políticas. Mesmo sendo deformado por uma educação mais à direita do que à esquerda (seja lá o que isso for), é com a maior das naturalidades que entre amigos tenho elogiado uma série de medidas do actual governo e de alguns ministros que têm tido a coragem de executar decisões difíceis e impopulares nas mais diversas áreas da nossa sociedade.

Mas também tenho que dizer que as últimas pérolas a que tenho assistido do gabinete do chamado Plano Tecnológico nacional me têm deixado no mínimo incomodado. Disclaimer: 1. Eu gosto de Software Livre e da liberdade de poder optar. 2. Não tenho nada contra a Microsoft, acho que é uma empresa tão manhosa e tão honesta como a Apple ou como o Google. Acho que estão no mau caminho, acho que estão errados e vão espalhar-se, não lhes reconheço inovação – aborrece-me profundamente, vivem dependentes de um lucrativo império de legacy e por isso não têm a coragem de serem disruptivos. Mas isto é uma opinião pessoal não tendencial e se eu estiver errado azar, não podia estar menos preocupado com isso nesta fase da minha vida.

Agora! O Governo não é uma empresa que cometa erros e pague por eles. O Governo é a representação do povo que o elege e o financia e bem para tomar decisões estruturantes e com impacto para o futuro deste País, confiando-lhes integridade e profissionalismo. O Governo não paga pelos seus erros, pagamos nós, e normalmente durante muito tempo.

É minha convicção neste momento que este PT não se rege pelas variáveis que eu esperaria ver na fórmula: direito à opção, universalidade, nacionalismo, isenção, oportunidade e educação. Eu acho que o Sr. Carlos Zorrinho, que não conheço pessoalmente, ou está muito mal assessorado (o que até sei que não é verdade) ou não mede o impacto das suas declarações e das suas acções ou é pau mandado ou por opção própria gosta de jogar no campeonato do sensacionalismo e do mediático – tudo coisas que este País já aprendeu a identificar, a menosprezar e a castigar severamente. Mas os políticos não aprendem a lição.

Ora, foi o espectáculo deplorável e na minha opinião humilhante da mega-recepção à Microsoft em Portugal para fazer um protocolo de cooperação. Depois o anúncio do financiamento de equipamento informático e do acesso à Banda Larga, em parceria com a Microsoft mas sem opções, e entre muitos outros benefícios entregues de bandeja a esta empresa americana hoje surge o programa de Literacia digital com a Microsoft. Já nem falo no desprezo com que o PT fala das iniciativas de Software Livre em Portugal (ie: Alinex, Caixa Mágica) e no mundo, contrastante com que vemos outros países civilizados fazer, ou das propostas hilariantes que vou lendo pela imprensa (lembro-me de uma do PS a propor endereços de E-Mail portáveis em .pt, my god, de onde vêm estas ideias).

Mas que raio ? Meus amigos, literacia é explicar as bases, mostrar às pessoas que para aceder à Internet precisamos de um Browser, para escrever um documento precisamos de um processador de texto e para falar com os amigos podemos fazê-lo com um programa de Instant Messaging, e é mostrar as opções aos formandos dando-lhes a liberdade de escolher. Liberdade de escolha é literacia. Iliteracia é o que está na cabeça de quem deu o nome a esta iniciativa, a sério.

Mas agora eu pago impostos para financiar uma lavagem cerebral a este País para formatar a população a usar exclusivamente produtos comerciais e serviços proprietários de uma empresa Norte Americana líder mundial de mercado nos Desktops e com taxas de penetração atípicas e preocupantes para um País como o nosso ?

Este plano não é um qualquer, é um plano maquiavélico e está a hipotecar a nossa liberdade com acordos que discriminam, e da pior forma.

Nacionalismo. Eu diariamente me debato no âmbito da minha actividade profissional com a concorrência global avassaladora dos gigantes da Internet. É mesmo muito difícil um produto Português vingar num mercado tão globalizado com o da Internet, mesmo que seja diferenciado, mesmo que acrescente valor. O peso das marcas globais e dos recursos que têm os nossos concorrentes sente-se e muito. Mas a realidade actual não é dura o suficiente, o nosso Governo quer dar uma mãozinha e certificar-se de que não vale a pena o esforço, rendamos-nos à inevitável predominância das multinacionais e deixemos-nos de esforços inglórios. Para quê ?

A continuarmos por este caminho, espero sinceramente conseguir salvar as minhas filhas do sistema e deste buraco gigante em que nos estamos a meter.

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