Ensaio sobre Portugal, parte 4, Fado

Carefully crafted in 04 Sep 2011

Perspectiva.

No filme Ratatuille há uma cena deliciosa que eu não me canso de citar em que o Anton Ego diz assim: “- Do you know what you’d like this evening, sir? -Yes, I think I do. After reading a lot of overheated puffery about your new cook, you know what I’m craving? A little perspective. That’s it. I’d like some fresh, clear, well seasoned perspective. Can you suggest a good wine to go with that?”. Retenham esta ideia.

Uma das nossas características que mais dificuldade tenho em perceber é o pessimismo. É um estado de espírito tão vincado e tão óbvio na nossa cultura que já transpõe fronteiras e se tornou uma imagem de marca do país. É como se os nossos antepassados tivessem sido amaldiçoados com uma depressão emocional de mil anos que se haveria de transmitir por muitas gerações e da qual somos todos vítimas e não conseguimos escapar. Chamam-lhe o fado, acho que é uma tentativa popular de tornar isto mais romântico, mais digno, mais melancólico e artístico, assim com há os “the blues” nos EUA mas eu acho que é uma versão optimista de algo que considero profundamente mau.

A razão pela qual recorro às bruxas é porque não há muito que do ponto de vista racional que eu consiga encontrar e que justifique este negativismo constante. E a prova de que a origem do fado tem que ser centenária e tem que ter explicações ao nível do DNA e da evolução das espécies é que ele sempre existiu, quer nos ciclos de crescimento, quer nos ciclos de crise. Os nossos avós tinham o fado, os nossos pais também, nós idem, e os nosso filhos serão provavelmente contaminados por esta praga.

Nem vou falar do país lindo cheio de sol e de mar que temos, nem da nossa boa qualidade de vida relativa, nem dos nossos excelentes recursos e oportunidades, ou dos povos infinitamente mais desfavorecidos e com muitos mais problemas do que nós mas que irradiam felicidade e alegria, não. Isso levaria a uma discussão quente com os marretas do costume a invocarem todos os nossos problemas e mais alguns e que não quero ter agora. Vou simplesmente argumentar que para um determinado problema, por muito grave que seja, há sempre pelo menos dois ângulos do prisma: um pessimista e um optimista. E o português escolhe recursivamente e conscientemente o caminho da lamúria e do queixume.

Muito nos queixamos nós. Queixamos-nos de tudo e de todos, dos salários, da corrupção, dos preços, dos políticos, dos impostos, dos polícias, da saúde, da educação, da economia, do emprego, do trânsito, do calor, do frio, da chuva, do vizinho, dos ricos e dos pobres, está sempre tudo errado, foi sempre tudo mal feito. E para complementar também gostamos da bela da comparação. Nada como usar uma boa comparação para ajudar à festa do queixume, preferencialmente uma que seja baseada em factos isoladas, sem contexto, tirados de uma realidade distinta, o que interessa é construir a metáfora e depois dar-lhe no discurso.

Voltemos à perspectiva. Sabem o que me dá imensa perspectiva? Viajar. Aproveito todas as oportunidades profissionais e pessoais que tenho para o fazer. E quanto mais o faço mais fico convicto que é uma das actividades que mais nos pode enriquecer como pessoas. Quando chego a um país novo e tenho contacto com uma cultura diferente transformo-me num alienígena deslumbrado, fico com aquela cara de burro a olhar para um palácio, e durante as primeiras horas fico num estado de transe introspectivo, a olhar para a cara das pessoas dentro dos carros e na rua, a escutar conversas, a ler os cartazes e a estudar os comportamentos e as reacções dos nativos, é assustador, ainda vou preso por isto. E infelizmente para quem não consegue ou não gosta de viajar, deixem-me dizer-vos que o conhecimento empírico aqui é crucial. Não há livro, nem estatística, nem Wikipedia nem relato que seja tão genuíno, eficaz e transformador como este contacto em primeira mão e esta vivência. Inconscientemente, acho eu, o que procuro é a resposta para uma pergunta muito simples e muito primitiva mas que me assola: estas pessoas são felizes ou não?

Há duas conclusões que a vida já me ensinou: 1. Há um contraste enorme e surpreendente entre a percepção que temos dos outros povos e a realidade dos mesmos. 2. A relação inequívoca entre a riqueza, os problemas de um país e a felicidade das pessoas é um mito absoluto. Não existe e há imensos exemplos disto. E portanto é como vos digo, se por hipótese amanhã saíssemos deste buraco e criássemos o mais justo, mais próspero e mais promissor país de que há memória na nossa história, garanto-vos que continuaríamos amuados, pessimistas e casmurros, porque é mais forte do que nós, corre-nos no sangue esta maldição.

Isto só é importante porque talvez nos ajude a compreender melhor a situação aonde nos encontramos. É certo e sabido que há uma relação forte entre o pessimismo, a aversão ao risco e o empreendedorismo (ou a falta dele), aliás a própria crise financeira recente está-nos ensinar isto muito bem com a lição dura de que a credibilidade, a especulação e a imagem, tudo factores subjectivos, são muitas vezes mais importantes e determinantes do que o pragmatismo dos factos.

É minha convicção de que o fado nos afecta muito, mais do que julgamos, e prejudica as pessoas, as empresas e a nossa sociedade em geral. Sorte terão aqueles que conseguirem negar esta herança e que por virtude de uma educação excepcional, de uma vida atípica, ou devido a uma mutação genética inesperada, consigam ser Portugueses optimistas. Esses vão ver as oportunidades aonde todos vêm problemas e defeitos, e se forem determinados e tiverem as ferramentas certas, vão-se dar muito bem, garanto-vos isto.

Antes: Sucesso

A seguir: Conclusão

Comments

comments powered by Disqus