Expresso, Google e a estupidez

Carefully crafted in 02 Sep 2008

Antes de ir de Férias, o Sr. Nelson Marques, Jornalista e colaborador do Expresso, pediu-me uma opinião sobre “um artigo sobre o Google (e, no fundo, a Internet) e a forma como ele tem alterado, por exemplo, a forma como lemos e percepcionamos esta informação.” a propósito de um recente “post” neste Blog. Acedi responder. Era uma tema “quente” e que me interessava e portanto gastei algum tempo com a resposta para que ficasse claro o meu ponto de vista. Este fim de semana comecei a receber SMSes de amigos por causa do meu nome ter aparecido associado a um artigo do Expresso intitulado “Está o Google a tornar-nos estúpidos?“.

Antes de continuar quero também deixar claro que não conheço pessoalmente o Sr. Nelson Marques nem o seu trabalho e que portanto isto não é um juízo de valores nem uma crítica ao artigo. É apenas um esclarecimento feito com respeito.

A razão deste post não é porque eu ache o artigo é fraco. Isso não mereceria a minha atenção. Escrevo porque não posso deixar passar incólumes duas referências na história às quais directa ou indirectamente o meu nome está associado:

Na edição em papel, o artigo é acompanhado com um ranking da ComScore sobre os sites em Portugal que coloca o Google em primeiro, o AEIOU em segundo e depois mais uns 4 ou 5 sites irrelevantes. O SAPO nem aparece no radar. Infelizmente não consegui fazer um scan do gráfico para reproduzir aqui.

Como é sabido eu tenho umas 100 T-shirts do SAPO ali no armário e portanto sim, sou suspeito e faccioso nesta questão. Mas bolas, não é preciso pesquisar nem saber muito de Internet para perceber que 1. A ComScore ainda não actua em Portugal. Faz umas coisas pela rama, em forma de estudos, muito dedo no ar, num contexto de Europa, e ninguém sabe como é que medem aquilo, mas certamente que não é nem com painel de utilizadores nem com dados fornecidos pelos sites. 2. O SAPO, por muito crítico ou enviesado que se seja, é inquestionavelmente o maior (de longe) projecto de Internet Português. 3. Goste-se ou não, questione-se a margem de erro, mas ficam aqui 3 serviços que espelham a razoavelmente bem a nossa realidade de audiências, um com painel (Netpanel), outro pela comunidade (Alexa) e o último por auditoria (Netscope).

O Expresso pertence ao grupo Impresa. O AEIOU também.

Uma menos boa interpretação, ou pelo menos parcial, do que tentei explicar.  Quem ler o artigo só fica com duas ideias sobre mim: adultero os livros que leio e acho que a Internet só debita porcaria. E sou o CTO do SAPO.

Ora sendo eu quem sou, com o historial que tenho de mais de 13 anos a trabalhar com a Internet em Portugal e considerando-me, modéstia à parte, um evangelista daquilo que de melhor esta ferramenta nos deu e nos continuará a dar isto parece no mínimo um contra-senso.

A realidade é que o que escrevi fi-lo num contexto de discussão sobre a alteração de comportamentos das pessoas e de todo o tema da crescente falta de atenção e criteriosidade dos utilizadores e nada mais.

Não é para mim claro, nem o disse, que esta alteração de comportamento seja negativa para a sociedade ou para os utilizadores e longe de mim associar a maior invenção da minha geração à estupidez das pessoas. É apenas a constatação de que há uma mudança a acontecer e à qual assisto activamente com expectativa e excitação.

Portanto, reitero o respeito pelos autores mas não me identifico lá muito com a linha de pensamento do artigo supra citado nem com o respectivo enquadramento das minhas opiniões. Em baixo deixo o E-Mail que enviei ao Nelson Marques.

From: celso.pt Subject: Re: ARTIGO EXPRESSO: Google e hábitos de leitura Date: August 2, 2008 4:20:11 PM GMT+01:00 To: nelsonmarques

Olá Nelson,

Começando do fim para o princípio, a Internet mudou definitivamente o nosso comportamento e os nossos hábitos, isso é visível até para o mais céptico ou desatento.

Eu, e julgo que qualquer pessoa que seja um utilizador intenso da Internet há tantos anos como eu sou, tenho mais dificuldade hoje em dia em ler um livro de ponta a pavio. Ou melhor, eu não tenho dificuldade em ler o livro, faço-o é de uma forma completamente diferente do que fazia há 5 ou 10 anos atrás, inconscientemente. Faço-a em busca da satisfação imediata, pulo capítulos ou partes desinteressantes, leio-o na diagonal, utilizo a história com um manual de referência, adultero-o. Ou seja não ofereço ao livro a atenção que ele merece, nem sequer lhe dou essa oportunidade. Não é que eu não queira, simplesmente deixei de ter os mesmo níveis de motivação para o fazer. Porque lá no fundo eu sei que o livro é comparavelmente ineficaz a recompensar-me pelo meu investimento, pelo menos no curto prazo. E o livro aqui é só a figura de tudo o que requere concentração, atenção e dedicação.

O problema da atenção, esse recurso altamente finito e precioso que os humanos têm, é na minha opinião mais grave do que a questão também actual do excesso de informação. Informação a mais não é um grande problema, houve periodos na história em que provavelmente lidámos com saltos quantitativos superiores ao que a Internet nos trouxe e safámos-nos bem, evoluímos para melhor. O problema é o tipo de informação que a Internet nos dá (e que os motores de busca privilegiam porque há um ecosistema natural de oferta e da procura igual a qualquer meio, por exemplo como a televisão), e que é em grande parte desinformação, efémere, trivial, sensacional, barata, é o fast-food dos conteúdos.

Mas os problemas surgem mesmo, como refere o artigo da CFA, quando o subconsciente toma conta do consciente e deixamos de ter critério. E é aqui que começamos a falar de estupidez, e é aqui nesta fase terminal que eu me preocupo (com expectativa, porque também acho que há muito de positivo) especialmente com as novas gerações de jovens utilizadores da Internet. Ou seja, quando um terramoto passa a ter o mesmo grau de importância que a saída de um jogador de futebol para outro clube.

Há outras questões relacionadas com o tema da atenção e do excesso de informação que merecem reflexão. O João Pedro com quem trabalho, deixou um comentário no meu post que fala sobre algumas:

Sobre os especialistas instantâneos, os grandes programadores feitos em 30 dias: http://www.norvig.com/21-days.html

Este artigo do economist é particularmente interessante porque fala de um efeito colateral que estas alterações de comportamento estão a fazer á comunidade cientifica. A extinção das grandes investigações, dos grandes estudos e dos trabalhos de fundo pode acabar também com as grandes descobertas acidentais. E as grandes invenções de todos os tempos foram acidentais. Ou melhor dito “Electronic searching means that no relevant paper is likely to go unread, but narrowing the definition of relevance risks reducing the cross-fertilisation of ideas that sometimes leads to big, unexpected advances. As a wag once put it, an expert is someone who knows more and more about less and less until, eventually, he knows everything about nothing.”

http://www.economist.com/science/displaystory.cfm?story_id=11745514

Mas não quero com isto dizer que a mudança seja negativa, sobre isso não tenho certezas. A Internet foi a maior descoberta da minha geração e eu acho que o seu maior potencial ainda está por revelar. A ruptura é sempre complicada, é preciso dar tempo ao tempo (também aqui) aos vários agentes da Internet, que também é um ser vivo, aos consumidores, aos produtores e aos organizadores. A visão da Web Semântica pretende também resolver em parte estes problemas, já agora: http://en.wikipedia.org/wiki/Semantic_Web

Espero ter ajudado. Boa sorte com o artigo.

Ab, Celso.

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