Viagem ao Egipto

Carefully crafted in 16 Apr 2006

A melhor forma de aprender a viver e de dar valor ao que temos é a viajar, viajar muito. Este será um dos ensinamentos que incutirei aos meus filhos. Não há nada nesta vida que nos exponha a tanta diversidade, que coloque tantas verdades em perspectiva, e no fim que nos surpreenda e nos ensine tanto como estar em contacto com culturas e países diferentes daquele em que vivemos. Não há livro que nos consiga transmitir esta experiência nem a sabedoria que daí advém.

Desta vez, por recomendação, fomos (eu e a Zélia) até ao Egipto. Ou melhor, Egipto coisa nenhuma, El Gouna. É uma estância balnear feita para turista ver, isolada da realidade dura deste povo, longe da miséria e dos problemas a que todos assistimos através dos média, especialmente desenhada para enaltecer o fantástico clima e a proximidade com o mar vermelho. A cidade foi artificialmente “encavada” no meio da costa talvez inspirados pela obra do Dubai e é propriedade particular da família Sawiris de um famoso arquiteto árabe.

Devo confessar que antes de sair de Lisboa, talvez por ignorância minha admito, a expectativa sobre a viagem era bem diferente do que aquilo que acabei por encontrar. Não era melhor nem pior, era simplesmente diferente.

A realidade começou a bater-me quando ao invés de um charter mais “europeu” de que estava à espera embarquei num A320 de uma companhia aéra egípcia Air-Memphis, com tripulação árabe, apinhado até ao tecto cheio de turistas portugueses com destino aos mais variados locais das arábias. Ao meu lado ficou um aerofóbico que em vez de “boa tarde” me saudou com um afável “isto não inspira muita confiança pois não?”. Apesar de tudo o vôo foi tranquilo, o habitual apertar de mão transpirado da Zélia a levantar da Portela, sem safanões, a meio uma velhinha ficou sem ar, alvoroço típico do curioso tuga, refeição da treta, o tipo do lado resolve insultar a tripulação por não terem vinho tinto para acompanhar, etc.

4h30m depois aterrámos em Hurghada. O aeroporto é um modesto, de muito limitadas condições. Preenchemos os documentos, cambiámos Euros por Libras Egípcias, adiantámos o relógio uma hora, e passámos a alfândega, talvez não por esta ordem não me lembro bem. Mal pusemos os pés em solo civil somos abordados por um nativo e pedir umas moedas em troca de um carrinho para as malas. Declinámos. Na passadeira para recolher as malas, mais um cromo a pedir moedas para me passar a mala que acaba de sair, declinei também, deu-me a mala à mesma.

À saída lá estava o nosso guia, o Jaime, que nos acompanharia na viagem de 30 minutos entre o aeroporto e o nosso Hotel em El Gouna num esforço louvável mas inglório de animar as hostes cansadas com histórias banais, política local e repetições de palavras árabes em coro. Ora bem eu saí de Lisboa com a imagem de um Hotel de 5 estrelas, paradisíaco, com excelentes condições (usando a minha bitola europeia), Internet por Wifi (falaremos disto mais adiante), etc. “Reallity check” parte 2: Primeiro entrei no Hotel através de um detector de metais e do olhar atento (ou não) de um guarda com uma bigodaça farta e um uniforme tão gasto que me fez lembrar um conto da lâmpada do Aladdin. Segundo, a entrada no quarto foi chocante, foi como um alfinete que se espetou no balão imaginário da bela cama de casal com lençóis limpos, quarto de banho cintilante e chuveiro de hidromassagem, NOT. Resumidamente: cal, tapetes, cobertores, camas de ferro velho, velhas, que rangem só de respirarmos, muito rústico, digamos. Quanto ao WC não os vou comparar aos improvisados do Festival do Sudoeste mas há duas coisas que me irritaram profundamente: o tampo da sanita não se segurava, qualquer homem perceberá a inconveniencia disto, e o chão do chuveiro é de, bem, chão!

Nós até somos do tipo tá-se bem, modelo aventureiros e pensamento positivo, eram 5 da manhã estávamos cansados e só queríamos umas boas horas de sono. Mas nada disso, o nosso quarto tinha uma propriedade acústica interessante e que consiste em concentrar no centro do mesmo todos os barulhos possíveis e imaginários que se faziam no prédio, incluindo a tosse a mulher tuberculosa do quarto do lado. Se eu fumasse, deixava de o fazer depois da tosse que ouvi.

Sábado, 11 horas, encontro com o Jaime no lobby do Hotel que nos informou num português macarrónico mas salvador das possíveis excursões e programas a realizar. Viagem de autocarro a Luxor, com escolta, saída às 4 da manhã, chegada por volta do meio dia, ver uns monumentos e uma fábrica, chegar à noite, NÃO. Viagem ao Cairo, saída às 2 da manhã, com escolta, ver uma pirâmide e fazer uma visita rápida à capital do Egipto, NÃO. Safari no deserto para almoçar numa tenda no meio dos camelos, ver umas cobras e ver o pôr do sol numa duna, NÃO. Viagem ao mar vermelho, snortling junto aos corais, saída às 7h30, chegada às 17h, noite de festa e jantar em Hurghada com direito a assistir à dança do ventre, a meio da semana, sim. Escolha fácil para quem veio para não se cansar e sabe por experiência que a correr não se vê nada. Alapar é a palavra de ordem. Sim, conseguimos ir ao Egipto e não ver uma única maravilha egípcia, nem uma pirâmidezinha.

Sábado

Prioridade número um, trocar de quarto imediatamente. O upgrade para os Bungalows não foi possível, deram-nos um quarto mais isolado, e era mesmo. Menos mau.

Resto do dia alapados na piscina. Protector de nível 40. Clima fantástico. This is the life… As bebidas são de borla, a cerveja pode vir fresca ou quente, é uma questão de sorte, até tem piada tentar adivinhar. A hospitalidade é excelente, a comunicação com os locais é no entanto muito difícil, a única coisa que faz “match” são meia dúzia de palavras em Inglês muito mal arranhado. Nunca a gestualidade e a perspicácia tiveram uma dimensão tão grande para mim. Com o treino lá nos entendemos e no entretanto aprenderam-se 2 ou 3 palavras em Árabe para fazer a piadinha social.

Fim do dia do pior.

Primeiro telefonámos aos meus Pais para saber da Beatriz e descobrimos que a minha mãe estava no hospital com ela, que acabara de ter uma convulsão supostamente por excesso de febre, do nada. A minha mãe bem que fez os possíveis para desdramatizar a situação mas como é óbvio ficámos angustiados. Não vou entrar em detalhes, quem tem filhos sabe como é, o que interessa é que não passou de um susto e ficou tudo bem.

Segundo, o Sporting perdeu com o Porto e disse adeus ao campeonato. A televisão do nosso quarto tem meia dúzia de canais cheios de ruído, dois em Alemão e o resto em Árabe. Dependendo da hora, o sinal pode ficar tão fraco que desaparece. O controlo remoto tem duas pilhas roídas e só funciona a dois palmos do aparelho. Mas por intervenção divina e quando pensava que só ia assistir ao jogo por SMS eis que o Aljazeera Sport (yep) está a transmitir em directo e com o sinal da Sport TV o jogo em Alvalade. Fantástico.

Domingo

Já vos falei da Internet por Wifi ? Uma certa pessoa que cá esteve, não vou mencionar nomes mas tu sabes quem és, pintou-me um quadro de conectividade confortável. Wifi nos quartos et al… Lá vim eu carregado com o Powerbook às costas com dois ou três pendentes para resolver nos intervalos. Bad move. A única conectividade que existe neste Hotel é um quiosque no lobby, daqueles todos atrofiados com um software manhoso, com um modem de 56k, inútil. O único Wifi das redondezas que deve existir deve ser o de um AP de um rico qualquer numa casa depois do lago, vi por lá ao longe um prato de microondas. E assumindo que esta tal pessoa que não é de confiar não sonhou com o Wifi, devia ser daí que vinha o sinal, quanto o vento soprava de feição. Sinal esse que eu nunca apanhei. Ah, GSM sim, GPRS nada, fudeu. Offline por uma semana.

Piscina, sol. Visita a pé ao “Downtown” do El Gouna. Neat. Tatoos, restaurantes, lojinhas turísticas, artesanato.

Mais um choque. A minha PSP ficou sem bateria e eu não trouxe carregador convencido que a conseguia recarregar através do cabo USB, tal como o iPod. Nope. Pânico.

Ligeira dor de barriga.

Segunda

Grande dor de barriga. Várias libertações espirituais, vocês não querem saber dos detalhes, acreditem. Acontece-me sempre que a alimentação muda drásticamente, principalmente quando entram especiarias e estranharias ao barulho. Enfim, aguenta e não chora.

Piscina, sol, ventania desgraçada que começou durante a noite e não parou mais.

Percorri as tendas, er.. lojas, todas das redondezas à procura de um daqueles transformadores universais que encontramos a rodos nas feiras na esperança de salvar a minha sanidade mental com uma PSP recarregada. Não só já me estava a passar com a dificuldade de lhes explicar o que queira como não encontrei nada.

Eis que resolvi por em prática todo o conhecimento adquirido durante anos a fio de episódios do MacGyver. Parti um cabo USB ao meio, tirei-lhe dois condutores de cobre, descarnei-os com os dentes e encostei-os cuidadosamente ao conector de um carregador Sony-Ericsson, que topei que tinha 4.9VDC dos 5VDC que a PSP pede. Do lado da PSP e à falta de solda, fita cola, pastilha elástica ou um chocolate Mars que fizesse as vezes da solda, encostei-os com um elástico. Esta fotografia ilustra o milagre. Funcionou. Salvo.

Jantar no Highlife do outro lado do Lago, para variar da repetitiva cantina, er.., restaurante do Hotel. Pina Colada numa réplica mal amanhada de um bar irlandês. Foi bom.

Terça

Hoje foi a vez da Zélia ficar meio torcida com a alimentação. Ventania ainda mais desgraçada, piscina e sol, sozinho na grande parte do tempo. A super Z ficou mesmo mal, ficou no quarto. PS: nunca venham para um sítio destes sem um kit de primeiros socorros e um termómetro, trust me.

Envio uns SMSs a fazer piadinha para meia dúzia de amigos, vem-me um de trabalho para me estragar o humor, e com bastante sucesso.

Neste dia particularmente monótono apraz-me dizer-vos que me bateu uma daquelas coisas a que chamamos de ubiquidade: as formas arredondadas de tudo. Tudo tem um floreado, uma curva, uma espiral. São as cadeiras, as camas, as mesas, as toalhas, os tapetes, a comida, as casas. Há uma obsessão cultural pelos arredondamentos que eu não sei explicar (alguém saberá, e deve ser muito simples), mas ela existe e é doentia.

O dia acaba com o transformador do meu Mac a dar o berro. Ainda se aguenta com um certo jeitinho mas temo que esteja nas últimas.

Quarta

Quarta foi o auge da semana, foi o dia que escolhemos para o nosso programa radical: um dia a bordo de um barco, no mar vermelho, para fazer “snorkling” e ver os famosos corais e fazer umas horitas de praia numa “Giftun Island” perto de Hurghada. Recomendo vivamente este programa.

Um dos objectivos que tenho na vida é ter experiências radicais com três elementos da vida na terra, o ar, a água e o fogo. Ainda não sei bem como é que vou realizar a parte do fogo é capaz de não ser nada agradável, vou ter que pensar bem nisso, nem que seja a última coisa que faça, literalmente.

O dia terminou com uma dose de “night-life” em Hurghada, jantarinho de peixe no “Joker” seguido de um espectáculo de variedades que incluiu a famosa dança do ventre (não, não envolve nenhuma barra de ferro no meio do palco nem a moça se estica para além da exibição dos lindos abdominais que tem) e fumar Shisha.

Quinta

Último dia. Mais sol e piscina. Shopping no fim do dia. Jantar num restaurante “normal” no “downtown”. Fazer as malas e cama.

Sexta

Viagem de regresso. Desta vez com uma escala demorada no Cairo. Foi porreiro, deu para ver muita costa do mar vermelho, as margens do Nilo e algumas pirâmides a partir do Avião. Chegada a Lisboa ao fim do dia, a chover, frio, e que bom que foi chegar.

Em suma:

Aquilo que eu vi não constitui de forma alguma uma amostra que me permita opinar de forma genérica. O verdadeiro Egipto cresce e vive nas margens do grande Nilo, começa no Sudão e atravessa o País até ao Cairo, a capital, passando pelas suas principais cidades. E isso eu não vi, conheço amigos que fizeram o cruzeiro do Nilo e adoraram.

O que eu vi foi o Egipto turístico, o das estâncias costeiras, umas das economias emergentes no País. E o que posso dizer é que o povo é adorável, muito simpático e que fazem o que podem com recursos muitos limitados numa terra completamente árida, no meio do deserto e com um clima nada propício à vida, mas bom para torrar turistas.

Apesar do tom sarcástico deste post, a verdade sincera é que a viagem valeu a pena. Valeu principalmente porque cumpri o meu objectivo de descansar, de conhecer uma cultura nova e de apanhar muito sol. Provavelmente não repetirei este programa específico mas fica o cruzeiro do Nilo na minha lista de afazeres para daqui uns anos largos.

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