Um Sábado diferente: Saltar de um Avião

Carefully crafted in 08 May 2005

Brutal. Peguem na experiência mais aventurosa que tiveram (para um indivíduo que se situe dentro dos padrões standard da normalidade, claro seja), multipliquem por dez e não vão chegar nem perto à sensação que eu tive ao saltar de paraquedas de um Cessna com a cabine aberta a 4000 pés de altitude pela primeira vez…

… e pela segunda, terceira e quarta. O curso de abertura automática da Blue Emotions já tinha começado há umas semanas atrás num dia nublado e ventoso e só ontem é que as condições meteorológicas proporcionaram a realização da parte prática. Depois de vários de fins de semana em que por via do mau tempo ou da (des)organização do evento não foi possível saltar, ontem lá foi mesmo. E foi assim:

Primeiro o despertador não tocou às 7h30m porque estava programado para só tocar nos dias úteis. Lá acordei.. er.. acordaram-me em sobressalto, atrasado, trocar de roupa, iogurte líquido no elevador, pegar no carro e pé a fundo.

10 minutos depois, em plena segunda circular nada como ter um furo (can you spell real bad luck?) no pneu da frente esquerda. Lá arrastei o carro para as bombas de gasolina que há ali antes da entrada na ponte Vasco da Gama, entre camiões Tir num trânsito já intenso. Telefonei ao meu irmão que já ia a caminho a pedir para informar a Blue Emotions do meu percalço, telefonei para casa e pedi à Zélia para me trazer o monovolume e entretanto mãos à obra para tirar um pneu de trás, passá-lo para a frente e meter o sobresselente no seu lugar. A Zélia chegou com a bebé, ensonadas (coitadas), troquei de carro e lá fui eu sem verificar o combustível só para ter que parar nas próxima bombas e perder mais uns minutos. Como diria um bom amigo meu: STRESS!

Por muito pouco supersticioso que seja confesso que foi caso para pensar se não seria esta trapalhada toda uma mensagem amiga do além para ficar quietinho em casa e desistir da loucura obsessiva de querer saltar de avião.

Cheguei ao Aeródromo de Tancos por volta das 10h15m, já o meu irmão estava completamente equipado e pronto a seguir viagem com o primeiro grupo de 4. Mal deu tempo para eu me auto-briefar dos procedimentos básicos já meio esquecidos das aulas teóricas. Foi porreiro saltarmos em vôos separados porque sempre pudemos tirar umas fotos um ao outro.

O primeiro salto do meu irmão correu impecável. 30-40 minutos e chegou a minha vez, a pulsação aumentou ligeiramente mas nada de especial. Nada que se compare à ansiedade que se apoderou de mim quando o experiente e campeão nacional Instrutor Lopes abriu a portinhola da avioneta em plena descolagem. Aos 4 mil pés de altitude (mais ou menos 1200 metros) começam os saltos. Salta o primeiro em queda livre (já batido nas andanças), o avião dá mais uma volta e é a minha vez (Glup!). Lá arranjei coragem para me posicionar na porta de saída com movimentos mínimos e com todos os meus sentidos em alerta máximo (out-of-topic: o corpo humano é uma máquina incrível especialmente quando a sobrevivência é posta em causa). No meio da barulheira infernal do motor e do vento o instrutor grita “Salta!”, e saltei!

Durante uns 4 segundos de queda livre até que o paraquedas se abrisse automaticamente eu era suposto fazer uma contagem mental que faz parte do procedimento. Qual quê !) . Bom, lá senti o safanão da abertura da asa, baloicei para um lado e para o outro, senti-me suspenso, acalmei, pensei nos procedimentos, olhei para cima, a asa estava bem aberta não tive que fazer nada, puxei os manobradores e dei as duas perdas obrigatórias, olhei para baixo e tive uma visão e uma sensação indiscritíveis daquelas que nos ficam cravadas nas memórias mais profundas e de mais longa duração, que são poucas. A passagem do estado de stress total ao relaxamento absoluto é fabulosa.

Em pouco segundos o Director da escola, o Raul, já me contactava cá de baixo pelo Rádio: “se me ouves dá uma volta completa pela direita”, e assim fiz. Vim por aí abaixo a curtir mais ou menos durante 5 minutos. A aterragem também correu bem, fiz uma boa aproximação do alvo e cheguei ao chão sem problemas nenhuns. Realização!

Ainda fiz mais um salto da parte da manhã. Fomos almoçar às 13h30h ao Restaurante Carroça e por volta das 15h iniciámos novamente os trabalhos. O terceiro salto já o fiz com muita confiança e desfrutei muito mais da descida do que os primeiros, talvez também por estar de barriga cheia. Contemplei serenamente o Castelo de Almourol no meio do Rio Tejo, a vila de Constância. Ao longo do rio viam-se vários grupos de canoagem a aproveitar o dia solarengo. Vê-se a A23, a base militar, umas piscinas, uma pista de Kart, um horizonte de verde e montes rasgados por estradas de terra. Dizem que num dia bem limpo e se saltarmos a 10 mil pés até o Mar se consegue ver.

No quarto e último salto do dia o vento aumentou consideravelmente. Por um lado foi bom para ter um termo de comparação mas por outro lado a aterragem foi péssima, a pior. Os cálculos saíram furados e apesar da assistência pelo Rádio quase me estatelava numa árvore, ainda lhe rocei com os pés. Mas tudo ok lá poisei bem.

E os saltos ficaram mesmo por aí. Para infelicidade das restantes pessoas e de um grupo grande que entretanto chegou, o avião já não voltou a subir tal era a intensidade do vento. Nós concluímos os quatro saltos que faziam parte do curso, recebemos o diploma da escola e a licença elementar de paraquedismo passada pela própria FPPQ (Federação Portuguesa de Paraquedismo) e fomos para casa. Minto, ainda ficámos com uns contactos para eventualmente fazer uns saltos na Base Aérea de São Jacinto em meados de Junho.

Pessoalmente e como já devem ter percebido pela descrição que fiz fiquei fã incondicional da modalidade e vou definitivamente repetir a experiência. Para quem ainda não experimentou mas tem vontade (e determinação, é preciso alguma !) recomendo vivamente não se vão arrepender garanto-vos.

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